by Rosana Hermann
 

Não se deixe enganar por essa letrinha com corpinho 1, em Itálico, mostrando meu nome bem pequenininho. É disfarce.

No fundo, meu ego megalomaníaco gostaria que o nome estivesse em letras garrafais, brilhantes, luminosas, em Times Square, Nova York, como aliás, fazem alguns apresentadores de tv nas aberturas de seus próprios programas, em geral, com seus nomes também no título.

 

Se não o faço é mais por medo que por humildade, mais por escrúpulo do que por ética. Eu tenho um ego do tamanho de um bonde, descendo uma ladeira em São Francisco, sem freio e cheio de passageiros.

 

Acredite, é mais fácil montar um touro bravo num rodeio durante oito segundos do que segurar meu ego selvagem no momento em que alguém abre a porteira desavisadamente.

 

A porteira, aliás, acabou de ser aberta. Estou aqui, me segurando, me roendo, sangrando, navegando pela web pra me distrair e não liberar o demônio da

Tazmania por uma bobagem.

 

O pior é que a alegria da platéia é ver o circo pegar fogo e o palhaço se f..der. A simples menção de que estou em ponto de bala para deixar meu ego explodir

faz com que a galera grite ‘pula! pula!’, ‘solta, solta’ e ‘conta!conta!".

 

Sim, porque, assim como a indústria alimentícia e o marketing não colaboram pra que a gente emagreça, o povo não ajuda ninguém a ser generoso e humilde.

Queremos sangue. Gostamos de sangue. A cor, o cheiro, o salgado do sangue nos atrai. Por isso todo mundo diminui a velocidade pra ver um acidente causando outros acidentes e muito congestionamento.

 

O ser humano é carnívoro.

Competimos por espaço há milênios.

E agora, competimos também na web.

 

Competimos, é plural de majestade. Eu compito.

Mesmo que não exista a primeira pessoa do singular do verbo competir. Dane-se. Eu sei o que meu ego indomável quer: re-co-nhe-ci-men-to.

 

O ego quer ser admirado, quer adjetivos elogiosos e exclamações de grata surpresa. Quer muitos clap clap clap, quer ohhhhhhhhh! cheios de agás, quer beijinhos, cutchie cutchie, e muito bem.

 

Aperto na bochecha nenê não quer, nenê não gosta.

 

Ego é bebê. É criança, fedelho, pentelho.

Ego é chato, voraz, desagradável.

Inadequado. Mas está lá. Sempre pronto para clamar por justiça.

 

Mania de ego inflado é se sentir injustiçado.

Passatempo de ego grande é esmagar em nome da lei. É clamar pelo correto quando o razoável resolveria.

 

Ego não samba, não tem jogo de cintura.

Ego não dorme, morre de insônia.

Ego não goza, finge prazer com gemidinhos.

 

Quem tem ego tem problema, ema ema ema.

Por isso peço ajuda, encarecidamente, a todos os que convivem com este monstro na coleira que arrasto pela mão, meu ego alemão, com mussarela italiana, convertido ao judaísmo, trancafiado num corpo pícnico, agarrado a um cérebro atento, medroso e inseguro como uma criança que segura um ursinho.

Minha cabeça é tudo o que meu ego tem pra brincar.

 

E por isso, de vez em quando, meu ego pega meu cérebro e chuta como bola no quintal do coração e marca um gol de mão, que deveria ser anulado.

 

Meu ego e meu cérebro, aliás, vivem em constante disputa e quem perde a partida, sou eu.

Meu cérebro sobe na balança, o ego mente o peso.

Meu cérebro escreve um post, o ego mede as visitas.

Meu cérebro abre a porta, o ego passa primeiro.

No carro, o cérebro dá a partida, o ego acelera.

No vermelho, o cérebro freia, o ego xinga.

 

O cérebro quer se encontrar, o ego se acha.

O cérebro quer um amor, o ego, se masturba.

O cérebro busca a performance, o ego quer a medalha.

O cérebro quer terminar este texto, o ego sopra palavras.

 

Não é por mal, é só doença. Doença da ilusão, de todo ser humano, de querer ser eternamente amado.

Ser continuamente reconhecido.

Infinitamente aplaudido. Em pé.

E, claro, com transmissão simultânea para todo o planeta. Ao vivo.

 

Um beijo, um browser, um aperto de mouse da Rosana Hermann

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